Domingo, 19 de Agosto de 2007

Só me apercebi disto, como de tantas outras coisas, na altura de deixar a alegre casinha e rumar à vida universitária. Mas a verdade é que ser de uma região sazonal, filha de pais comerciantes, tem mais que se lhe diga. Senão reparem: em primeiro lugar eu nunca tive férias com os meus pais. Porquê? Óbvio: quando nós, criancinhas de escola temos férias, em pleno Verão, os meus pais estavam em altura de maior trabalho; depois, quando os meus pais podiam relaxar da silly season, eu já estava sentadinha na carteira de escola, com os livrinhos a cheirar a novo e o material escolar por estrear.

Mas não fica por aqui. Felizmente (embora às vezes tenhamos que lhe colocar o prefixo "in") tenho uma família grande, como muitos primos e primas emprestados e tantos outros amigos dos amigos dos primos, vizinhos, familia dos vizinhos, vizinhos da familia, crianças, tantas crianças... E também felizmente (embora às vezes tenhamos que lhe colocar o prefixo "in") tenho uma casa grande, com algumas atracções veranis. Os meses de Julho e Agosto sempre foram marcados pelo som da água da piscina, dos gritos dos miúdos, da minha avó lá do fundo da rua dela a dizer "Não andes aí com os pés molhados", "Não façam barulho que a mãe tá a dormir a folga"e dos nossos projectos de ganhar muito dinheiro com a apanha da alfarroba (que no fundo não durava mais de 2 ou 3 tardes, tal era a dureza do trabalho... ou da nossa falta de habituação a ele). Eram os meses dos reencontros com os que estavam lá para Lisboa, lá para a França, lá para a Alemanha. É o tempo em que os limites desta casa desaparecem por completo, e todos têm e procuram o seu lugar.

E depois? Depois vem Setembro, como sempre veio, e lembro-me tão bem da angústia daqueles dias entre o fim do meu Verão e o início de um novo ano. Eram interminavelmente vazios e silenciosos.

A grande diferença nas nossas férias e nas férias dos outros, é que eles vêm e vão e nós estamos quando eles chegam e ficamos a vê-los partir. E toda a região se resente pelos que partem, sejam filhos, enteados, netos, bisnetos ou simplesmente simpatizantes, forasteiros neste rectângulo a sul. Levam-nos cor, alegria, movimento e pretextos para refilar do trânsito, das praias cheias de gente, da confusão... Confesso que também refilo, lá de vez em quando. Mas agonizaria se o cinzento do Inverno cobrisse a fugacidade dos tempos de calor.

É a sazonalidade da vida dos pássaros do sul.



apoquentado por Béu às 20:39 | linque da apoquentação

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